quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Mudando de pele

Dando sequência ao momento Almodóvar...

Imagine que você vai morar numa casa estranha, com hábitos muito diferentes dos seus. Você não se sente confortável, mas é a única saída. A porta está trancada e você não tem como escapar. O jeito é se adaptar e arquitetar um plano de fuga. Mas mesmo que você vá embora, nada será como antes. É essa extrema claustrofobia que faz de A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar um filme único, apesar das inúmeras referências.

Como bom cinéfilo que é, Almodóvar foi buscar em seus filmes preferidos detalhes para construir a história de A Pele que Habito. Mesmo que o cartaz do filme informe que a produção é inspirada no livro Tarântula, do escritor francês Thierry Jonquet, não há como negar a presença de dois clássicos do cinema de terror dentro da trama: A Noiva do Frankenstein, de James Whale e Os Olhos sem Rosto, de Georges Franju. Da ótima sequência do clássico Frankenstein, de 1931, estrelada pelo sempre assustador Boris Karloff o diretor espanhol trouxe a exuberância das imagens de corpos sendo moldados, construídos e desconstruídos. Já do filme francês, lançado em 1960, Almodóvar buscou o desespero psicológico angustiante, um terror sem sustos nos corredores. Com essa mistura ousada, A Pele que Habito resulta num filme de terror que nos dá medo por suas situações e não por seus monstros. A “aberração” que nos é apresentada pelo protagonista passa longe da feiúra, é delicada e feminina. Um “monstro” que, ao invés de provocar arrepios, nos clama misericórdia.
Fazer uma sinopse mais profunda de A Pele que Habito seria estragar a surpresa e o ápice do filme que, em seus longos flashbacks, nos apresenta a jornada que transformou o cirurgião Roberto Ledgard em um homem obcecado por vingar o suposto estupro da filha. Mas será apenas vingança ou há por trás do renomado médico um cientista louco escondido?
A Pele que Habito é um marco na carreira de Almodóvar que, mesmo sem perder o estilo excêntrico herdado pela Movida Madrileña, movimento cultural onde ele iniciou sua vida de cineasta, ganhou uma elegância que filmes como De Salto Alto e Kika não apresentam. Um Almodóvar maduro, mas fiel às suas raízes loucas e entorpecidas dos anos 80.
Medo, ciência, loucura, voyerismo. Tudo isso se mistura criando um DNA único. Não é preciso mais o vermelho-sangue nos figurinos e nos cenários. O que faz A Pele que Habito ser Almodóvar até a última gota são os detalhes.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Desgraça pouca é bobagem


Filmes que têm como protagonista uma mulher sofrida, submissa e com sérios problemas familiares existem aos montes. São a terapia de muitas donas de casa, que se identificam de imediato com aquela vidinha repetitiva e vislumbram nos finais felizes presentes na maioria das produções uma esperança que o dia-a-dia não lhes dá. Mas e quando não há o happy end, ou pelo menos não o clássico, com sorrisos, reconciliação ou um recomeço cheio de alegrias? Bom, aí não há como fugir. O bicho pega. Muitos irão sair da sala de exibição, desligar a TV, tirar um cochilo que vai durar até os créditos finais. Mas também vão ter os que encaram o desafio até o final. Para esse grupo de corajosos é que são feitos filmes como Que fiz eu para merecer isto?, do espanhol Pedro Almodóvar.
A trama, para não fugir ao estilo almodovariano, é excêntrica: a protagonista Glória mora num minúsculo apartamento nos subúrbio de Madrid acompanhada do marido, da sogra e de dois filhos. Até aí, tudo normal. Mas é nos detalhes que o estilo Almodóvar se mostra. Glória tem todos os motivos do mundo para ser infeliz. O marido, além de grosseiro e falsário, alimenta uma paixão por uma cantora alemã. A sogra vive num mundo á parte, onde “esquece” sua diabetes bebendo água com gás e comendo bolinhos, além de criar um lagarto com o cômico nome de Dinheiro, algo muito em falta na vida da família. Entre uma camisa para passar e um jantar para preparar, Gloria ainda tem de lidar com dois rebentos, digamos, únicos: um traficante de heroína de apenas 14 anos e um homossexual que ganha a vida “brincando” com homens mais velhos. Nessa confusão de criaturas complicadas Gloria leva seus dias cinzas e chuvosos como o outono madrilenho.
Com todos os elementos para ser um melodrama, Que fiz eu para merecer isto? marca uma das primeiras mudanças na carreira do espanhol Pedro Almodóvar. Depois de iniciar sua carreira com produções no formato super-8 e 16mm durante a fervilhante Movida Madrileña, um movimento contracultural que movimentou artistas de todas as áreas após anos de ditadura franquista. Era um tempo de libertação e o diretor entrou no clima e tornou-se um dos símbolos do movimento. Sem dinheiro para estudar cinema, Almodóvar valeu-se deste período para aprender fazendo. Produções como Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão e Labirinto de paixões são coloridas e passionais ao estremo, um Almodóvar em estado bruto. A partir de 1983, com o lançamento de seu terceiro longa, Maus Hábitos, a pedra preciosa Almodóvar começa a ser lapidada. Um ano depois, em 1984, um novo ambiente se forma e Que fiz eu para merecer isto? surge. Influências estão em toda parte, sem vergonha nenhuma. Afinal, Almodóvar é antes de tudo um cinéfilo incurável e eclético. Mesmo que o clima suburbano de Madrid seja a marca registrada do filme, há toques de neo-realismo italiano, acentuados pelas atuações brilhantes e verdadeiras de nomes como Carmem Maura e Chuz Lampreave, conhecidas do teatro espanhol.
Que fiz eu para merecer isto?, num primeiro olhar, é uma comédia. Não há como não rir dos diálogos insólitos entre Glória e sua amiga Cristal, uma prostituta aspirante a estrela de cinema. Mas, entre uma risada e outra, nos perguntamos como é possível achar graça de uma realidade tão dura e que a cada quadro se mostra mais difícil de superar? É isto que faz de Almodóvar um diretor ímpar, sua capacidade de criar comédia num ambiente de tragédia e, ainda assim, emocionar. Glória não é tão boba quanto parece. O problema é que toda vez que ela tenta alcançar a felicidade ou algo que lembre isto, a coisa desanda. Tenta trair o marido em busca do tão sonhado prazer e o escolhido é impotente. Arruma um emprego e o patrão não tem um tostão. Briga com o marido e acaba cometendo um crime. Ah, o crime! Almodóvar gosta tanto dele quanto Hitchcock e, assim como o mestre do suspense, faz dele a situação menos importante do filme. Não é o cadáver que importa, é como este cadáver virou um cadáver. Ou como ninguém vai descobrir que ele virou um cadáver.
Glória, um nome cintilante para uma mulher opaca. Mais um daqueles paradoxos que, na mão de um diretor medíocre, soariam caricatos. E são, mas uma caricatura almodovariana tem um peso diferente. É tudo tão absurdo que parece a vida. Que fiz eu para merecer isto? é uma comédia com uma desgraça atrás da outra. É de se pensar: e se o final fosse diferente? E se, na beirada da sacada, Glória tivesse tomado outra decisão? Mas Almodóvar não quer perguntas. Nem respostas. Quer apenas contar histórias. Ótimas histórias. O que fizemos nós para merecermos um filme tão bom?

Bjus da Bia

sábado, 26 de novembro de 2011

A crítica e o sentimento

Para a maioria da população, ser crítico de cinema é muito fácil. Você assiste filmes de graça, ganha brindes, escreve qualquer coisinha e deu. Foi. Nunca pensei assim e minha ideia só se acentuou quando comecei a me arriscar a escrever críticas. Deixando minha falta de experiência de lado, a cada dia que passa cada texto vira um parto. No início, e tenho certeza que por culpa da empolgação, você é exagerado, escreve com muitos adjetivos, repete adjetivos, aliás, e acaba criando um texto que mais parece uma declaração de amor. Ou de ódio.
Depois de algumas dicas e textos, você descobre que, como tudo na vida, o bom tom está no equilíbrio. Tá bom, são permitidos alguns deslizes, já que alguns filmes tocam tão fundo em nossos sentimetnos que não há outra saída. Mas mesmo nessas horas, é preciso parar, pensar e colocar no papel. O leitor não tem bola de cristal, é bem provável que não tenha visto o filme. Por isso, uma breve sinopse se faz necessária. Odeio sinopse. Odeio mesmo. É o resumo, do resumo, do resumo. Mas tem muita sinopse por aí que pensa que é crítica.

Escrevo este texto porque, dada a minha paixão pelo cinema, escrever sobre filmes para mim é algo sério. Tenho muiiiiiiiiiiiitooooooo que aprender ainda, estou no início do caminho. Mas desde já prezo o respeito ao leitor, me dando a liberdade de elogiar e falar mal, sempre com argumentos. Talvez um dia, quando eu souber um pouco sobre cinema, meus textos sejam do jeito que eu sonhei que eles deviam ser. E aí eu entro em crise denovo. A tal perfeição a gente não deve alcançar nunca. É ela que move nosso trabalho. E nossa vida.

Estou aprendendo a equilibrar crítica e sentimento cinéfilo. Afinal, texto técnico cansa qualquer um e rasgação de seda torra a paciência até de um monge. Vamos que vamos, aqui ou ali, escrevendo, errando e aprendendo.

Bjus da Bia

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A poeira apaixonante


Sou cinéfila desde que me entendo por gente, já que fui criada num ambiente onde o cinema era assunto sério, discutido em todos os cantos da casa. Com tantas opiniões e sugestões ao meu redor, acabei por não conseguir me decidir por apenas um gênero cinematográfico para chamar de preferido. Eu tenho é uma lista de amores em diferentes intensidades. Mas talvez o que ocupe um lugar especial no meu coração seja o faroeste. E a culpa disso é toda da obra-prima Era Uma Vez no Oeste, do diretor italiano Sergio Leone.
Famoso por ser diretor assistente em vários filmes épicos (Quo Vadis talvez seja o nome mais significativo dessa fase do diretor), Leone ganhou o público e a crítica quando foi pra "cozinha" e misturou uma colher de comédia bem ao gosto italiano, uma pitada extra de violência e uma boa dose do velho oeste americano. O resultado foi o western-spaghetti, gênero que surgiu an italia e se espalhou por toda a europa nos anos 60. Os filmes do western-spaghetti iam ao extremo, com heróis cheios de caras e bocas e muitos tiros que mais pareciam assobios de tão agudos. Com uma produção farta (foram mais 200 longas só em 66!), o gênero acabou repetindo fórmulas e dando aos fãs uma boa quantidade de filmes fracos e, em alguns casos, toscos. Mas no meio disso tudo surgiu Era Uma Vez no Oeste, um filme de Leone que pode e não pode ser considerado um western-spaghetti, tão grande é a sua singularidade.
Antes de mais nada, o longa é um faroeste de primeira linha. Roteiro inteligente, personagens bem estruturados e misteriosos e cenários que tiram o fôlego. Mas o diferencial está na maneira como tudo isso é mostrado. Leone abusou como nunca dos closes nos atores (sua marca registrada) e criou um dos vilões mais malvados que a sétima arte já viu. Não há espaço para piedade ou bons mentos escondidos no personagem Frank, interpretado com maestria pelo sempre elegante Henry Fonda. Franka está na cola do homem da gaita, vivido por Charles Bronson que, como todo bom caubói, fala pouco e atira muito. Aliás, as cenas de violência presentes em Era Uma Vez no Oeste causaram furor na época do lançamento do filme. Mesmo que o motes principais dos faroestes, sejam eles americanos ou não, são os duelos e os desejos de vingança, nunca antes a tela grnade havia visto tantos assassinatos e bandidos sem nenhum escrúpulo. Mas como para tudo é preciso equilíbrio, os roteiristas Dario Argento e Bernardo Bertolucci trataram de incluir nesse tiroteio todo um pouco de charme feminino. Mas não é qualquer charme. A bela Claudia Cardinale vive uma bela viúva que esconde um passado nada comportado em seus olhos delicados. Por mais que as femme fatales existissem desde os ano 40 no universo do cinema, não era comum a mocinha de um faroeste ir para a cama com o bandido.
Para completar a receita de um bom filme ao sugo, Leone chamou para a trilha sonora seu parceiro Ennio Morricone, responsável por eternizar na mente de muitos cinéfilos melodias que lembram a poeira do oeste. A música, aliás, é mais um personagem dentro do filme. Em momentos de tensão, ela acentua ainda mais o clima pesado, quente e modorrento que paira no ar.
Mesmo quem torce o nariz para filmes de faroeste, sob o pretexto de que são todos iguais, deve dar uma chance para Era Uma Vez no Oeste. Mais do que um bang-bang, o filme de Sergio Leone é uma aula de cinema.

Película Sonora

Meus caros amiguinhos, podem começar as pedradas por causa do meu sumiço. Sumi porque muita coisa aocnteceu, sonhos se realizaram, desafios bateram na porta e eu convidei pra um café bem quente. É só o início de uma jornada que, tenho certeza, vai me trazer alegrias até na hora dos perrengues. Enquanto isso, de 15 em 15 dias, vocês podem curtir minhas ideias de cinema na coluna Película Sonora, do Caderno Teen do jornal A Razão, cuidado com muito talento pela jornalista Luísa Kanaan.

Bjus da Bia

domingo, 18 de setembro de 2011

Fazendo Arte

As coisas da Bia agora estão no site do programa Fazendo Arte da Rádio Universidade (800 AM). Toda sexta-feira, essa Bia que vos fala vai indicar um filme bacana para você curtir no fim de semana ou quando quiser! É só acessar www.ufsm.br/fazendoarte ese divertir :)))

Bjus da Bia

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Renegado impiedoso


Se esse blog resolvesse fazer uma série de posts sobre diretores injustiçados, vocês, caros leitores, iam cansar as vista tal o tamanho da turma que trabalhou bem e não foi reconhecido. E eu não estou falando só de não ter recebido Oscar ou integrar listas importantes. Falo de não ser lembrado, que é o tipo de rejeição que mais dói. São muitos os nomes, mas um em especial me perturba seriamente.
O americano John Sturges nunca foi um cineasta autoral e podia sem problemas ser enquadrado como um diretor de filmes por encomenda, ou seja, o estúdio comprava os direitos do roteiro, o escalava e ele dirigia. Assim, prático e sem grandes aspirações artísticas. O que não quer dizer que a Sturges não tivesse dedicação e esmero em seu trabalho. Cada frame era extremamente estudado, fotografia impecável e uma direção de atores que muitos mestres não possuem.

Indicado ao Oscar apenas uma vez, pelo suspense Conspiração do Silêncio, há pouca informação sobre John Sturges disponível em livros e mesmo na internet ele ainda é um desconhecido em muitos sites sobre cinema. É a velha história do filme que se sobrepõe ao diretor, já que Sturges nos deu obras incríveis como Fugindo do Inferno, A Águia Pousou, Sete Homens e um Destino e Sem Lei e Sem Alma, filmes que marcaram o gênero de guerra e o faroeste. E aí está mais um motivo para Sturges ser pouco ou quase nunca lembrado: seus filmes não eram revolucionários, não mudaram a história do cinema mas estão presentes na lembrança de muitos admiradores da sétima arte por serem bem acabados, divestidos e empolgantes, características que os críticos mais blasés e chatos não costumam levar muito em conta. Uma boa amostra disso foram as críticas pesadas em cima de Sete homens e um destino, uma adaptação de Os Sete Samurais, antes mesmo de seu lançamento. Os mais tradicionais acharam quase uma ofensa trazer a obra única de Akira Kurosawa para um cenário tipicamente americano como é o velho oeste. Quem pensou assim esqueceu que entre as influências de Kurosawa está o grande nome do faroeste John Ford. Ou seja, samurai pode sim dar uma volta na poeira ianque. Sturges não se deixou influenciar e fez seu filme tornar-se único: não é nem melhor nem pior que o de Kurosawa. É diferente, apesar das semelhanças.
John Sturges era um trabalhador do cinema. Cumpria prazos, não dava chilique e mantinha um clima de harmonia entre seus atores. Chegou,inclusive, a aumentar uma cena de perseguição de moto a pedido do amigo e astro Steve McQueen. O resultado foi uma das melhores cenas de fuga que o cinema já viu. E a prova de que nem só de rixas e desentendimentos se faz um bom filme.

Renegado Impiedoso é o nome de um western indígena protagonizado por Charles Bronson, um outro amigão de Sturges. Não foi dirigido por ele, mas o título cai como uma luva para definí-lo. Um diretor sem medo da labuta, mesmo que pouco lembrado. E mesmo que ele não tivesse feito nenhuma película marcante, só por isso já mereceria nosso aplauso.

domingo, 28 de agosto de 2011

A guerra de Billy


Diga o nome Billy Wilder numa roda de cinéfilos e será inevitável: o centro das atenções será o senso de humor desse diretor polonês que conquistou Hollywood em plena sua década de ouro. Responsável pelo roteiro e direção de Quanto mais quente melhor,considerada a melhor comédia de todos os tempos, segundo o American Film Institute, Billy Wilder gostava de dizer que era um diretor de comédias mas, como a maioria de seus contemporâneos, passeou por vários gêneros. Drama familiar com Farrapo Humano, inaugurou o cinema noir com Pacto de Sangue e deu um show de direção em Testemunha de acusação, um dos melhores filmes de tribunal já feitos. Mas nem só de cotidiano vivia Wilder. A guerra, esse tema tão pesado e controverso, também deu suas caras na obra do diretor. E não foi só uma vez.

Em Inferno n° 17, Wilder narra a trajetória dos prisioneiros de num campo de concentração alemão durante a Segunda Guerra. Poderia ser mais um filme sobre soldados americanos sofrendo nas mãos dos seguidores de Hitler, mas Wilder acrescentou o seu tempero na trama. E foi uma colher bem generosa.
Protagonizado por William Holden e com uma participação muito especial do diretor Otto Preminger, que, assim como Wilder, também deixou seu país de origem, a Áustria, para trabalhar nos EUA, no papel de um general alemão atrapalhado. Aliás, só em um filme de Wilder um general alemão seria atrapalhado. Mas ele vai além e coloca, entre uma sequência séria e outra, verdadeiros esquetes de humor recheados da fina ironia típica dos diálogos de Wilder. Ironia essa que ajuda a equilibrar o amargo tema central do filme: a traição em tempos de guerra. Uma das melhores cenas do longa de 1953 é a de um baile de natal improvisado, onde os prisioneiros deixam o preconceito de lado e formam duplas pra lá de animadas para dançar.
Depois de acomodar sua câmera entre os beliches apertados de um campo de concentração, Billy Wilder resolveu ir mais longe e focar seu olhar ácido para o Marechal Rommel e seu plano de destruir o exército britânico.

Cinco Covas no Egito nos apresenta a história do cabo inglês John Bramble que, após ver seus colegas de batalha serem mortos no confronto com os alemães, acaba encontrando refúgio em um hotel em pleno deserto. Tudo estaria bem se não fosse a chegada de Rommel e sua comitiva, que transforma o local em quartel general. Para escapar, Bramble assume o lugar de Davos, o garçom do hotel. O que ele não esperava era que o empregado fosse um informate do exército alemão.
O tema é complicado, afinal, trata-se de um dos períodos mais violentos da 2ª Guerra Mundial. Mas Wilder imprime em cada fala, cada cena, um pouco de sua visão irônica, transformando o temido Rommel em um homem carrancudo e vaidoso, personagem que cai como uma luva no ator e diretor Erich von Stroheim. E mesmo em momentos dramáticos, como os interpretados por Anne Baxter, que vive uma francesa que tenta a todo custo tirar o irmão mais novo do campo de batalha, encontramos a presença do humor. Não um humor rasgado, com piadas prontas típicas dos pastelões. Mas um humor sutil, presente nas palavras e nas entonações e que não soa forçado em nenhum momento. Mais que aliviar o clima tenso, os pequenos deboches servem para conduzir a trama com mais veracidade, já que nenhum mundo é feito só de sofrimento.
Billi Wilder será sempre o homem das boas comédias. Não aquelas que nos fazem gargalhar até ficarmos vermelhos, mas aquelas que nos fazer rir com o canto da boca, no melhor estilo "é, é bem assim mesmpo". Cinco Covas no Egito é uma amostra do olhar de Wilder para com o mundo: um filme de guerra, sofrido como todo filme de guerra, mas dotado daquele sorriso assustador que o lado negro sempre insiste em manter firme.
Bjus irônicos da Bia


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Gosto de tabaco


Meu avô fumou do 14 aos 68 anos. Ou seja, cresci cercada de fumaça,conhecia praticamente todas as marcas de cigarro e o cowboy da Malboro talvez tenha sido um dos meus primeiros amores westerns. Sei que fumar faz muito mal a saúde e nunca senti a mínima vontade de experimentar uma tragada. Aliás, só de sentir o cheiro já me embrulha o estômago. Deve ser por isso que só me sinto a vontade com fumantes dentro da sala escura. E não estou falando de cinemas onde vale tudo. Eu gosto é de crivos acessos na tela grande.
O filme noir não seria tão noir sem a fumaça surgindo da ponta das piteiras das femme fatales ou próximos aos lábios dos rapazes charmosos. Bogart que o diga! Fez multidões se iniciarem no mundo do fumo e deixou esse mundo em decorrência de um câncer de pulmão. Escritores, suas máquinas de escrever...e seus cigarros. O jovem transviado, sua máquina potente...e seu cigarrinho combinando com a jaqueta de couro vermelha. Cigarro e cinema andam juntos faz tempo. Mas nenhum filme tem tanta nicotina quando Cortina de fumaça.A produção independente, lançada em 95 e dirigida po Wayne Wang, é uma verdadeira ode ao tabaco e as boas histórias. Na trama, troca-se a mesa de bar e suas filosofias baratas pela tabacaria comandada por Auggie Wren, interpretado com leveza e talento por Harvey Keitel, ponto de encontro dos amantes de cigarros e charutos. Entre um maço e outro, eles discutem basquete e futebol americano, sofrem, brigam. Wang pegou 5 personagens com histórias distintas, unidas apenas pelo rolinho branco que seguram entre os dedos. E o que poderia tornar-se um emaranhado sem pé ne cabeça é muito bem abordado pelo diretor, que demosntra em cada cena uma dedicação carinhosa por suas criações. Esse carinho também é fruto do autor do roteiro, o escritor Paul Aster, famoso por se valer do cotidiano para criar personagens tocantes sem nem uma pitada de pieguice.
Vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim, Cortina de fumaça inebria o espectador a tal ponto que, em certos momentos, é possível sentir o ar pesado pela fumaça. Da fotografia amarelada aos ventiladores eternamente ligados, tudo nos leva até o escaldante verão de Nova York, e a um Auggie obssessivo por fotografar a mesma rua, na mesma hora, faça chuva ou faça sol. Uma maneira de lembrar que aquele lugar que é sempre o mesmo, nunca está igual. Uma nova cor na parede, um novo morador no prédio, um novo artigo na vitrine. Tudo muda e é tudo igual. Como um cigarro depois do outro.
No mesmo ano de Cortina de fumaça, Wang e Aster se uniram novamente e fizeram Sem Fôlego, uma espécie de continuação do primeiro longa. O roteiro não é tão empolgante, mas vale pelas participações especiais de gente como Jim Jarmush,Lou Reed, Michael J. Fox e Madonna, numa verdadeiro ode aos tipos excêntricos americanos. Mas mesmo cheio de estrelas, Sem Folêgo não supera Cortina de fumaça e sua cena final, um monólogo de Harvey Keitel como só ele conseguiria fazer e a sequência que vem em seguida, merece aplausos por sua fotografia em preto e branco e a voz nicotinada de Tom Waits. Daquelas cenas que deviam poder ser tragadas de tão boas.

Bjus da Bia


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Love


Falar de amor no cinema não é novidade. Desde que 24 quadros por segundo passaram a significar bons momentos, beijos, abraços e carinhos sem ter fim sempre estiveram presentes nos mais variados gêneros e sob as mais diversas abordagens. Mas um filme, pelo qual nutro uma relação dúbia, insiste em encabeçar as listas dos mais românticos de todos os tempos.
Love Story - Uma história de Amor,dirigido por Arthur Hiller, nasceu da cabeça do roteirista Erich Segal, que aproveitou o sucesso estrondoso do filme para transformar seu roteiro em livro (seria um escritor frustrado tentando uma pequena felicidade?). E a juventude dos anos 70 soluçava ao ver o romance da suburbana Jenny e do milionário Oliver. A velha fórmula menina pobre+garoto rico=paixão e lágrimas.
Fiz o seguinte caminho na minha descoberta de Love Story: li o livro, um exemplar amarelado herdado de mamãe, quando tinha 15 anos. Óbvio que os hormônios e a babaquice típica da adolescência me fizeram idolatrar aquela trama simples e triste. Só anos depois, aos 21, tive a oportunidade de assistir ao filme. O que senti?

Nada.
Nadica.
Nops!

Estranho, não? Nem eu conseguia entender o que se passava na minha cabeça quando os créditos finais começaram a aparecer na tela. Estava feliz? Triste? Queria repeteco? Não sei dizer. Minha única certeza naquele momento é que Love Story tem todos os ingredientes de uma produtora que encontra-se prestes a falir. Possui todos os clichês de um início de romance hollywoodiano, flertando com pouca habilidade em alguns momentos com o screenball comedy, e, quando poderia dar um rumo surpreendente para a trama, se vale da morte da protagonista para deixar o público com o coração na mão.
Contei o final, estraguei a festa. Não é pra tanto, queridos leitores. Love Story se revela logo nas primeiras cenas: será um amor complicado, dois jovens construindo uma vida e tendo seus planos futuros interrompidos por uma doença fatal. Isso sem contar as cenas de romance na neve e afins. Escorre mel de tão doce. E falso.

Você aí, se chegou até o final deste texto, deve se perguntar: afinal, Bia, tu gosta ou não desse filme? Olha, gosto da trilha, gosto do figurino, Ali MacGraw está linda como nunca e acredito sim, que amar é jamais ter que pedir perdão. Mas acho que esse amor podia ter outro fim ou então um novo modo de fim. É bonito, mas envelheceu. Não me convence mais. Mas ainda diverte, tenho que confessar.
Pensando melhor, talvez quem tenha envelhecido fui eu. Envelhecido a ponto de ter um romantismo diferente do que habitava minha cabecinha aos 15 anos. Não sou mais Jenny. Talvez nunca tenha sido. Mas uma coisa não mudou: aind acredito em histórias de amor.

Bjus da Bia

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Amar sem razão


O dia dos pais é no próximo domingo e seria esperado que eu selecionasse algum filme sobre pais e filhos. Até tentei. Mas não sei se por destino ou por instinto, foi o tema maternidade quem deu as caras por aqui essa semana. Mas não é qualquer maternidade. É a mais sofrida de todas elas. A que lida com a perda.
Ha tanto tempo que te amo, filme de estreia do francês Phillippe Claudel narra um reencontro que nada tem de terno ou reconfortante. Juliette, interpretada pela sempre sublime Kristin Scott Thomas, vai morar com a irmã mais nova após passar 15 anos na prisão. Seu crime: assassinato. Seria mais uma daquelas personagens tentando um recomeço após um longo período atrás dos muros de uma penitenciária não fosse um pequeno detalhe. O crime cometido por Juliette envolve seu filho de 6 anos. Quando essa informação chega até nós, espectadores, a primeira reação é a de estar diante de um monstro. Sensação essa que só se acentua, graças ao olhar frio e tristonho com o qual Juliette observa o mundo.


Mas a trama tem um que de travesseiro novo, ainda frio pelo plástico da embalagem mas que, aos poucos, vai se acostumando ao nosso toque e ganhando uma nova forma, mais acolhedora. E, tal e qual o travesseiro que revela falhas ou torna-se imprescindível ao nosso sono, passamos a descobrir os defeitos e os motivos de Juliette. E são vários os defeitos, mas nenhum deles nos fere. O filme tem uma delicadeza natural que nos sentimos parte daquele mundo, mesmo que não vivamos na França. Não é o cenário o que importa, são as pessoas. Pessoas como nós, com dores impublicáveis que nunca vão sarar, mas que tentamos amenizar para seguir em frente.
Há tanto tempo que te amo é um filme sobre mães de verdade. Sem canções de ninar ou enxoval bordado. Mas com um amor que ultrapassa aquilo que o mundo real nos cobra toda hora: a razão.
Bjus da Bia

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fruto Maduro


Cresci cercadas de homens. Sempre me senti mais à vontade com eles do que com as mulheres da casa. Talvez porque eles sejam menos frescos, talvez porque sejam mais engraçados, sei lá. Mas só agora parei pra pensar que esses homens que cercaram a minha vida tinham uma coisa em comum: todos eram mais velhos do que eu.
Homens à parte, lá estava eu exercitando meu lado mulherzinha folheando revistas femininas atrás de um look bonito e barato pra servir de inspiração para uma festa quando me deparo com um par de olhos azuis que fez meu coração quase parar. Não, o cara ao lado não era modelo. O par de olhos estava na banca, me fitando da capa da Revista Alfa(meninos, leiam, assinem, devorem!). De barba por fazer e gravata, Clint Eastwood. Na hora me veio na cabeça o primeiro "encontro" que tive com Clint. Eu não devia ter mais que 12 anos, uma adolescente boba que achava o então rostinho de bebê Leonardo DiCaprio o homem mais lindo da terra. Daí veio o Clint, montado num cavalo em Por um punhado de dólares. Aquela cara de homem mexeu comigo. Na hora eu não entendi direito porque. Hoje entendo muito bem.
Na entrevista, Clint fala sobre maturidade e se declara um romântico. Surpresos? Eu não. Sempre sustentei a teoria de que por trás de tiros e caras de mau se escondem homens sensíveis. Clint é a prova disso. Deu porrada e crivou de bala muita gente. Depois fez a mulherada, e muito marmanjo, gastar caixas de lencinhos em As pontes de Madinson. Hoje, ele diz que se sente revigorado ao ver a filha mais nova, Morgan, crescer diante de seus olhos. E ainda se rasga em elogios para a atual esposa.
Tudo isso, me fez ver que já está na hora de soltar o verbo: meninas, não reclamem quando seus homens insistirem nos filmes de ação. No fundo, eles só querem posar de heróis para suas mocinhas. E, da próxima vez que forem juntos a locadora, peçam um Dirty Harry. É de suspirar.
Bjus da Bia

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Na pele


Há quem diga que tatuagem é um fetiche e que essa coisa de marcar a pele vai além da arte: é também uma forma de sensualidade. Tem coisas tão fortes, tão importantes em nossas vidas que não há outro jeito de tê-las por perto sempre a não ser usando tinta e agulha. Essa é uma boa definição para o belíssimo filme O livro de Cabeceira, do diretor Peter Greenaway. Quem conhece o trabalho do cineasta nascido no País de Gales mas criado em Londres, sabe que seus filmes não são facilmente digeríveis para o grande público. Até quem é fã precisa de umas duas ou três sessões para entender determinadas nuances propostas por ele em cenas e diálogos. Porém, O livro de cabeceira é considerado um de seus filmes mais "comuns" e tem uma forte influência da linguagem televisiva moderna. Um exemplo são os momentos em que a tela se divide em várias, de tamanhos diferentes, mostrando ações de vários personagens ou então quando ganha ares de videoclipe, como na cena da overdose do personagem Jerome, vivido por um jovem e ainda desconhecido Ewan McGregor, um ano antes de conquistar as telas com o ótimo Transpotting, de Danny Boyle.
O longa é, de início, a história de uma relação intensa entre um caligrafista e sua filha Nagito, que ganha em cada aniversário uma mensagem escrita em seu rosto e nuca. Um momento íntimo recheado de tradições. Mas ao longo da trama, Nagito cresce e busca em seus amantes o praqzer através da tinta na pele criando a bela caligrafia japonesa. O que parecia ser apenas uma fantasia tornasse algo incontrolável, levando Nagito a buscar novos amantes, novas letras, novos corpos para suas histórias.
Mesmo privilegiando a linguagem visual moderna, Greenaway foi muito original ao acrescentar características típicas do cinema oriental, que possui simbolismos bem diferentes dos nossos. Um erotimso poético paira no ar desde a primeira cena de O livro de cabeceira, graças à autora do livro que deu origem ao filme, a cortesã Sei Shonagon, que criou a mais de mil anos as histórias eróticas que rondam a vida de Nagito.
Uma mulher escrevendo histórias em corpos masculinos. A pele como papel para explorar e dividir desejos. Coisas que só Peter Greenaway conseguiria traduzir na grande tela.

Bjus da Bia

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A marca que ninguém apaga


Não existe situação pior do que assistir a um filme tendo apenas opiniões negativas sobre ele. Passei por isso ao ver Os quatro do Apocalipse, um dos poucos filmes de Lucio Fulci que ainda não havia visto. Mas eu consegui, mesmo com a enxurrada de comentários ruins rondando a exibição, me divertir durante uma hora e meia e achar o argumento perfeito para os que destruíram este western diferenciado: a famosa e comentada marca registrada.
Os gênios costumam ter as suas e mesmo quem não conhece seus principais filmes consegue identificá-las. Lucio Fulci ganhou as telas e conquistou fãs dentro do gênero Giallo, os filmes de terror italianos temperados com sangue vermelho-tomate, nudez e uma leve dose de erotismo.

Ao lado de Dario Argento, ele ajudou a concretizar o movimento com obras-primas trash como A casa do cemitério e a cine-série Zombie. Mesmo se aventurando em algumas comédias, o italiano nunca deixou de lado o clima sombrio e violento. Talvez por isso um roteiro como o de Os quatro do Apocalipse renda tantas críticas. Não há como negar que a história é boa, mas do meio para o fim a coisa desanda e o que poderia render um final clássico vira algo abrupto, resolvido às pressas, como se não houvesse mais rolo de filme suficiente. Mas passa longe de ser um ruim, pois Fulci aproveita todos os momentos para estampar sua marca, em especial na cenas de tortura e canibalismo. É como se, nessas horas, as cenas dissessem "hei, fomos feitas pelo Fulci, viu?" Coisas que só consegue quem sabe o que faz. Imprimir em todos os gêneros que lhe são oferecidos sua digital.
Bjus da Bia

terça-feira, 17 de maio de 2011

Olhos nos olhos


Comecei a usar óculos aos 9 anos. No começo sofri um pouco, já que lentes chamam à atenção, por mais discretas que sejam. E tímidos odeiam chamar a atenção. Durante um bom tempo, houve uma certa vergonha, uma sensação de "porque preciso disso?". Tentei lentes de contato, mas um probleminha de sensibilidade na íris impediu que eu ficasse com elas.O jeito foi encarar a vida de frente usando um pára-brisa. Era o único jeito de ver o mundo (e, principalmente, os filmes) nítidos. E foi um filme que me ensinou a amar os meus óculos.

Janela da Alma, documentário do talentoso João Jardim, é mais que um filme sobre olhares. É um verdadeiro registro de sonhos e histórias únicas que só quem tem a visão (im)perfeita consegue vivenciar. Desde a mais simples e fraca miopia até a cegueira total, nosso olhos (sempre eles) são presenteados com amores, sintonias e, antes de tudo, relações de amor com as imagens. Seja o colega de palco (Marieta Severo resume bem a coletividade que é ser ator) ou a fotografia ideal, tudo é um recorte que fazemos da vida. E, como nos filmes, temos nosso efeitos especiais. A vista embaçada por causa do choro, o fechar de olhos na hora do medo, a pupila dilatada diante da surpresa.




Sabe aquela história de visão de mundo? Pois é, cada um tem a sua e não é só uma metáfora para opinião. O olho é uma câmera e a gente filma o que bem entender. E, como em qualquer produção, temos percalços, imagens que não estavam nos nosso planos mas que não nos deixam outra saída. Precisamos encarar de frente. Sem piscar.



Hermeto Pascoal, José Saramago e o fotógrafo Evgen Bavcar são alguns do convidados para exporem suas relações com o olhar. Mas o depoimento de Wim Wenders é, pelo menos para mim, o mais poético. O cineasta das paisagens discorre sobre como se sente mal quando perde seus óculos, pois eles ajudam-no a enquandrar o mundo. Segundo Wenders, sem suas lentes ele "enxerga demais". Para ele, ver é enquadrar. Cada rosto, cada céu, cada detalhe é um plano, um close, uma cena.
Minha miopia teria solução. Uma cirurgia simples, de recuperação rápida. Mas dispenso o hospital. Minha vida não teria a mesma graça se não fosse a confusão que faço, ao acordar, procurando meus óculos no escuro. E sempre encontrando.

Bjus da Bia

sábado, 14 de maio de 2011

Aprendizagem


Aprender a ler, escrever, contar. Já passei por todos estes verbos na vida. Agora chegou a hora de aprender o verbo gostar. E quer melhor professor que David Lynch? Calma, eu explico.
Não, ainda não tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e travar uma longa conversa sobre sonhos, filmes e afins. Isso porque, até bem pouco tempo atrás, eu não o suportava. David Lynch era, para mim, um chato de galochas e orelhas cortadas. Assiti Veludo Azul aos 12 anos, a tradicional idade da bobeira, não entendi lhufas e decretei o fim da minha relação com Lynch naquele dia mesmo. Minha rebeldia falou mais alto e eu tachei o rapaz de velho gagá. Anos depois, o arrependimento bateu numa madrugada gelada, onde Veludo Azul surgiu novamente diante dos meus olhos graças à TV a cabo. Chorei feito criança e o arrependimento deu lugar aquela humildade típica dos apaixonados arrependidos. Sabe aqueles roamnces onde a mocinha passa a trama inteira brigando com o mocinho pra, quase no final, se dar conta que não pode viver sem ele? É piegas, mas define bem minha história com David Lynch. Um brigaçada que acabou numa paixão louca graças a Coração Selvagem. Nicolas Cage cantava Love Me e eu me rendia: Lynch, I love you. A atmosfera de sonho, o sentimento sendo descrito na tela da maneira doida como só os sonhos conseguem, o mal-estar necessário em algumas cenas, o romantismo anos 50...enfim, uma apaixonada listando os dotes de seu amor.

Lynch agora ocupa um lugar especial no meu coração. Lugar selvagem, diga-se de passagem.

Bjus da Bia

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Meu herói


Estou sumida por um bom motivo: meu vovô cinéfilo, Leonardo, teve um infarto. E, acreditem, está tinindo de bom!!!! Molinha nova no coração e o mesmo bom-humor de sempre. Pra não deixar passar, vou postar um vídeo com os dois psitoleiros preferidos do meu velhinho amado: Randolph Scott e Joel McCrea.

Afinal, o cara que me ensinou a amar e respeitar o faroeste merece todas as homenagens. Aiô, silver!

Bjus da Bia

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Lee ao quadrado e o mundo doido


O mundo é mesmo muito doido. Um ator leva uma carreira para construir sua imagem de machão, encarando um papel de coronel turrão ou soldado sofredor atrás do outro pra no final levar um prêmio da Academia por um papel cômico. Foi isso que aconteceu com o saudoso Lee Marvin que, em 1965, colocou na estante (ou em cima da lareira, vai saber...) o homenzinho dourado por seu papel duplo em Dívida de Sangue, títulozinho mequetrefe para o filme que narra a trajetória da pistoleira Cat Ballou, vivida pela lindona Jane Fonda.
A metade dos anos 60 foi um período de mudanças no gênero western, graças a chegada das produções européias recheadas de humor. Dívida de Sangue foi contaminado por esses filmes, mas possui uma autenticidade ímpar. Juntou canções no melhor estilo musical da Broadway (interpretadas pelo comediante Stubby Kaye e por Nat King Cole!!!), muitos tiros e uma dose inteligente de diálogos engraçados. Isso sem contar a ousadia na escolha do elenco. A sexy Jane Fonda ganhou ares de professorinha e a cara amarrada de Lee Marvin teve que se dividir em duas. Uma hora ele é o malvadão sem nariz Tim Strawn e na outra o bêbado pistoleiro Kid Shelleen.

Uma prova de que a escolha de Marvin para o papel foi certeira é que o espectador consegue esquecer a fama de mau do ator, que arranca gargalhadas com suas caretas alcóolicas. Mas a cena crucial é a da transformação. Gastando munição em suas garrafas vazias de whisky para melhorar a mira e passando um perrengue para voltar a ser sóbrio, Kid Shelleen muda de sapo para príncipe numa das sequências mais legais do filme. A gente nem lembra que o pistoleiro charmoso já fez muita gente sofrer no clássico Os Doze Condenados, de Robert Aldrich.
O diretor de Dívida de Sangue, Elliot Silverstein, conseguiu colocar no filme um clima leve, divertido e um ótimo ritmo nas cenas de ação. Ele podia muito bem ter deixado a palavra paródia tomar conta do enredo e transformar tudo numa chata avacalhação do gênero western. Mas não. Há um respeito, uma preocupação com detalhes que deixa claro que Dívida de Sangue é um faroeste engraçado e não simplesmente uma comédia pastelão ambientada no velho oeste.
Mais uma prova de que esse mundo é doido, é que Elliot Silverstein iria dirigir anos depois de Dívida de Sangue um dos westerns mais violentos de todos os tempos: Um homem chamado cavalo, que marcou a história do gênero por suas cenas cruas de tortura. Prova de que se arriscar em vários tipos de filme não é atestado de falta de talento.

Bjus da Bia

sábado, 23 de abril de 2011

Sem redenção


Uma notícia de jornal pode ser o ponto de partida para um bom filme. Foi assim que nasceu o roteiro de Segredos de um funeral, título fraco para um filme originalmente chamado Get Low. Inspirado por uma história publicada na revista Time em 1938, o longa apresenta a história de Felix Bush, um carpinteiro velho e rabugento que vive enclausurado em sua casa no meio da floresta e que é tido como uma lenda em sua cidade graças a sua fama de brigão. Se ele já atraía olhares só pelo fato de dirigir sua carroça em direção ao bar, a coisa só piora quando Bush resolve organizar seu funeral. Seria apenas alguém que sente que o fim está próximo e quer deixar tudo organizado para descansar em paz. Mas Bush quer tambores, comida e bebida. E quer estar lá. Vivo, diga-se de passagem. O que parece loucura para os moradores da cidade torna-se a grande chance para o vendedor Buddy e seu chefe Frank, que trabalham numa funerária que está mal das pernas.
Vivendo a maluquice que é agir como um organizador de festas sendo um agente funerário está o sempre ótimo Bill Murray, num papel que foge um pouco do estilo de personagem que o consagrou. Saí o cara solitário com cara de paisagem do século XXI e entra o endividado e ganancioso viúvo do final da década de 40. Mas o humor sutil e os diálogos ditos com naturalidade de Murray continuam lá, para tranquilidade dos fãs conquistados pós- Encontros e Desencontros. Só que o filme não pertence a ele, mas sim ao veterano Robert Duvall, que dá mais do que corpo e voz para o misterioso Felix Bush. O que na mão de outro ator podia tornar-se um velhinho solitário quase pueril, no talento de Duvall torna-se um caso a ser desvendado, um ser humano tentando fazer as pazes com o mundo. E mais, sofrendo para tornar isso uma realidade. As cenas de Duvall ao lado de Sissy Spacek são delicadas e ao mesmo tempo impactantes, já que somos, aos poucos, apresentados aos motivos que levaram Bush ao isolamento.
Segredos de um funeral é um filme raro em tempos politicamente corretos como os que vivemos hoje. Sem querer estragar o final, mas se você, caro leitor, curte um "felizes para sempre", prepare-se: não há redenção no filme. Nenhum anjinho cai do céu e perdoa os pecados dos personagens e o amor também não salva ninguém por estas bandas. Justamente por isso merece o nosso aplauso.

Bjus da Bia

domingo, 17 de abril de 2011

Grandes filmes, filmes grandes


Lá se vão 20 anos sem David Lean. Durante muito tempo ele foi para mim o homem que sabia adaptar Charles Dickens com perfeição para o cinema. Nunca parei para contar, mas deve ter sido mais de uma dezena o número de vezes em que assisti uma versão dublada de Grandes Esperanças, gravada da TV no meu saudoso vídeo-cassete. Quando a fita mostrou sinais de desgaste, eu já estava mais interessada na versão mais atual, sexy e esverdeada dirigida pelo mexicano Alfonso Cuáron.
Mesmo que o seu Oliver Twist seja disparado a mais emocionante adaptação da história do jovem orfão para as telas, o nome de Lean será para sempre associado ao clássico Lawrence da Arábia, filme que lhe rendeu o Oscar de melhor direção em 1963, além de levar mais 6 estatuetas para casa. Também pudera: se a Academia gosta de filmes grandes, Lean criou um gigante das telas.

Lawrence da Arábia tem grandes cenários, desertos sem fim, figurantes aos montes. Cada cena é uma obra-prima, um ápice, enche os olhos até dos amantes do minimalismo. Lean sabia o poder que as paisagens desérticas tem na telona e não poupou esforços para mostrá-los das maneiras mais belas possíveis, apoiado na boa história vivida por T.E. Lawrence.
Mas Lean era, antes de tudo, um cara esperto. No meio de toda essa grandiosidade ele colocou um belo par de olhos azuis que atendem pelo nome de Peter O'Toole, um dos atores mais talentosos do cinema e do teatro. A enigmática e quase rude personalidade de Lawrence transborda na interpretação dele, uma verdadeira transformação, se levarmos em conta que O'Toole é um homem conhecido por seu jeito atencioso e delicado.
Lean lançou ao deserto um grande ator e acertou em cheio. Prova de que um filme grandioso pode ser um grande filme. Pena que nos resta sentir saudades de diretores com esse faro, tão raros nos nossos tempos. Mas como surpresas existem aos montes, nada impede que amanhã tudo mude como as areias do deserto.

Bjus da Bia

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A mulher, o monstro e o povo


Vamos brincar de dar um nó nos contos de fada? Então, vamos lá! Chapeuzinho Vermelho não é mais um simples menininha que atravessa a floresta para visitar sua avó doente, mas sim uma criativa garota com dotes para criações audiovisuais. No meio do caminho, ela encontra um lobo mau de bigode e cabelos lambidos que lhe propõe criar filmes que mostrem ao mundo o quanto ele é bom para os habitantes da floresta. Só que nós sabemos que Sr. Lobo só respeita coelhos branquinhos e uma que outra raposinha. O resto está condenado à faca. Ou melhor, aos dentes. Chapeuzinho topa a parada e usa todo seu talento para apresentar na tela o poder do Lobo Mau. Ganha uma boa grana e passagem livre para o estrelato, pelo menos dentro da floresta. Foi mais ou menos isso que aconteceu com a senhorita Leni Riefenstahl.
Talentosa cineasta, Leni usou toda sua técnica e bom gosto estético para vender ao mundo a imagem de um Hitler preocupado com o povo e disposto a tornar o mundo melhor. Contratada pelo partido nazista, ela criou documentários que, para quem caiu de pára-quedas no mundo agora, provocam admiração. Em O triunfo da vontade, sua obra mais conhecida, Leni registra o Congresso do Partido Nazista, sediado em Nuremberg em 1934. Seria um simples documento para os arquivos do Terceiro Reich, não fossem os ângulos utilizados, sempre privilegiando Hitler. Isso sem contar os close-ups nos rostos das crianças sorridentes vendo o führer desfilar em carro aberto, tal e qual um herói nacional.

O triunfo da vontade cumpre a sua função e não se pode negar o talento de Leni para filmar multidões e discursos. Mas nada se compara a Olympia, documentário de 1938. O que era para ser apenas um registro das Olimpíadas de Munique torna-se um verdadeiro balé de corpos perfeitos. Atletas exibindo o melhor de sua forma em movimentos precisos. O impacto dessa "dança" é tão forte que há momentos em que esquecemos que por trás dessas imagens há um dos maiores assassinos que a humanidade já conheceu. Um exemplo desses momentos de ilusão que Olympia nos dá, são as vitórias do atleta negro e americano Jesse Owens, presenciadas pelos grandões da cúpula nazista. Será um sinal de que Leni não apoiava Hitler, como afirmou em diversas entrevistas? Acho difícil. Registros da época de sua visita a Hollywood afirmam que ela se considerava uma cineasta genial e gostava de armar barracos em hotéis. Um pezinho no nazismo ela tinha.
Talvez hoje nós estáriamos contando outra história se o talento de Leni Riefenstahl tivesse sido usado para outros fins ou se ela tivesse dito não para Adolf Hitler. Não há como saber o que a levou a aceitar esse convite. Mas não custa sonhar e acreditar que a verdadeira vontade da menina Leni era apresentar nos seus negativos toda a verdade, com todas as letras: senhoras e senhores, eu lhes apresento...o monstro.

Bjus da Bia

Mais sangue, por favor!


Não é o futebol. A verdadeira caixinha de surpresas da vida é a mesa de bar. É nesse lugar agradável, ou nem tanto, que as pessoas se revelam e você acaba descobrindo que as aparências enganam. Ou melhor, que cada um escolhe uma "cara" para aparecer por aí. Prova disso eu tive quando vi um cara fortão, marrento, daqueles que chegam até na igreja em posição de ataque. Ele tinha até um tic nervoso que deixava sua cara em eterna raiva mesmo durante uma boa piada. Pois foi esse cara que, ao meu ver, devia saber todos os Duro de Matar de cor e salteado, me sai com essa:
- Filmes violentos deviam ser proibidos, são péssima influência. Eu não vou sair de casa pra ver alguém morrer. A gente liga a TV e só tem morte, morte. É preciso um pouco de distração.
Vamos por partes, como diria o Jack. Concordo que o cinema é a mais bela fábrica de ilusões e que é uma delícia sair do cinema leva, com a sensação de que a vida é bela e nem tudo está perdido. Também acho que a violência da realidade já é gigante. Mas não acredito que um filme possa ser influente nesse ponto. O caso da tragédia na escola Tasso da Silveira, no bairro de Realengo no Rio de Janeiro está em todos os jornais e muitos são os que põe a culpa da violência do assassino Wellington Menezes na internet. Isso mesmo. Muita gente tem dado uma importância gigante para o fato dele passar horas na internet e no video-game como o ponto de partida para a execução de seu plano de "vingança". Lembra muito o caso de um jovem de classe média que entrou atirando dentro de um cinema durante uma sessão do filme Clube da Luta, de David Fincher. Muita gente colocou a culpa no filme.
Meus caros, assisto filme violento desde que me entendo por gente e jamais teria coragem de sair matando por aí, mesmo em momentos de raiva extrema. O culpado não é a internet e muito menos o filme. Os motivos que levaram esses dois meninos a cometerem seus crimes vem de muito antes. Não vai ser uma obra de ficção a responsável.
Os filmes violentos existem para que a gente exercite nosso lado feio, sujo e malvado. E não venham com alma pura, que todo mundo tem um lado assim. Seja raiva do mosquito que não te deixa dormir até o chefe que pensa que sabe tudo e não te deixa trabalhar. Como não temos coragem e nem sangue frio para sair matando por aí, vamos ao cinema ou lemos um livro que faça por nós, que alivie nossa tensão. Ver o sangue na tela traz uma espécie de alívio. Proibir jogos ou filmes violentos não adianta nada. A melhor saída é conversar e entender quem está do outro lado da tela. Afinal, são eles que escolhem apertar ou não o gatilho.

Bjus da Bia

sábado, 9 de abril de 2011

Sufoco


Parece que foi ontem o dia em que tive, diante dos meus olhos, pela primeira vez, o filme 12 homens e uma sentença. Confesso que loquei mais pelo fato dele ser protagonizado pelo meu então amor platônico Henry Fonda do que pela sinopse. Aliás, eu confesso, nem li a sinopse. Simplismente me deparei com aquele par de olhos azuis e agarrei a caixinha da prateleira da locadora. E o que era para ser mais uma sessão de suspiros pelo mais elegante ator americano, tornou-se uma aula de cinema. Sidney Lumet entrou rasgando no meu coração. Eu estava apaixonada.
Hoje, ou saber de sua morte, aos 86 anos, vítima de um linfoma, fiquei em choque. Lumet é daqueles diretores que a gente pensa que nunca vão morrer. Ele ainda estava na ativa e mantinha seu talento intacto. Prova disso é seu último filme, Antes que o diabo saiba que você está morto, uma raridade sufocante e que injeta adrenalina no público a cada frame. Lumet adora essa agitação, esse clima quente de Nova York e fez questão de imprimir isso em maravilhas como Serpico, Um dia de cão e O príncipe da cidade. E o sufoco também está em 12 homens e uma sentença. Ele seca nossa garganta, nos faz pensar, participar junto e analisar cada um daqueles homens, alguns mais animais selvagens do que racionais. Acho que era esse sufoco que mantinha Lumet sempre atento, uma eterna pressão que não deixava ele perder a mão para fazer o bolo chamado filme. E não era só essa a sua especialidade: fez tv e teatro com a mesma dedicação e maestria.
A morte de Sidney Lumet é mais um sufoco nesse começo de ano trágico para os cinéfilos. O que nos conforta é que o cinema tem o poder mágico da imortalidade e os filmes desse grande homem estão aí para quem quiser ver. E perder o ar.

Bjus da Bia

terça-feira, 5 de abril de 2011

Mestre Tas

Ontem, no meu amado CQC, mestre Marcelo Tas deu uma aula de amor, tolerância e respeito. E ainda tivemos uma amostra do nível dos nossos governantes na ilustre e podre pessoa do Dep. Bolsonaro. Educação vem de casa. E a casa onde ele foi criado não deve ter sido das melhores.



Bjus da Bia

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Esperança


O que você faz quando sente fome? Simples, dá um jeito de arranjar comida. Mas e quando não há comida? E eu não estou falando em geladeira desfalcada, mas em mundo desfalcado. Teria você, prezado leitor, coragem de devorar, literalmente, seu vizinho?
Papo estranho esse aí de cima, não? Mas é esse o clima do filme A estrada, do diretor australiano John Hillcoat. O longa tem seu foco na relação entre um pai e um filho sobreviventes de uma série de acontecimentos cataclísmicos que tornaram o planeta um lugar gelado, cinza e assustador, muito bem retratado na fotografia sombria de Javier Aguirresarobe. Mas sombrio de verdade é o protagonista, vivido pelo sempre arrebatador Viggo Mortensen. Desde a primeira cena ele já mostra a que veio, não poupando esforços para proteger e orientar o filho na selva que se tornou a Terra. E isso incluí técnicas de suicídio e a sensação de medo constante, onde a simples aproximação de um ser humano torna-se algo perigoso.
Diferente de outros filmes-catástrofes, que acreditam no poder de efeitos visuais grandiosos para causar impacto, A estrada resolve nos mostrar o estrago "do lado de dentro". Um homem e uma criança em busca de comida e um lugar quente para passar a noite; fugindo de pessoas que não viram outra saída para a fome que não o canibalismo. Não há coração e sentimento que resista. Dentro do pai Viggo Mortensen só restou o amor paternal e só. O resto que se exploda. Opinião que contrasta com a alma ainda inocente do filho, que acredita que não há mal nenhum em dividir o pouco que se tem. Um pequena guerra de atitudes que mexe com o espectador do começo ao fim, pois nossa razão e emoção ficam entrelaçadas e não sabemos direito quem está certo e quem está errado. Aliás, será que existe certo e errado num mundo destruído? É nesses momentos que a palavra esperança pisca, devagar, na tela, dando um pouco de alento para o público, que esquece, por alguns segundos, as árvores sem vida e o solo congelado ao se deparar com os rabiscos coloridos feitos pelo menino sobrevivente, que não sabe o que é Papai Noel. E, se soubesse, provavelmente não iria acreditar.
Quem conhece a obra do escrito Cormac McCarthy, na qual A estrada é inspirado, sabe que ele adora nos fazer sofrer. Lembram do indestrutível Anton Chigurh de Onde os fracos não têm vez ? E o sofrimento é duplicado graças a melancólica trilha sonora do mestre Nick Cave, velho parceiro de Hillcoat, como no maravilhoso faroeste A proposta, de 2005.
A estrada não é um filme para dias felizes, a não ser que você queira dar uma acalmada na euforia. Ao acomodar-se na poltrona, prepare-se: você estará diante de um mundo no qual ninguém quer viver. E tente não ficar emocionado ao ver a curta participação de Robert Duvall, representando todo o suplício do homem que só quer e sabe fazer uma coisa: sobreviver.
Bjus da Bia

quarta-feira, 30 de março de 2011

Outro adeus


Já está me dando medo. Em menos de um mês, mais um grande ator nos deixa e torna o mundo do cinema mais vazio. Quando soube da morte de Farley Granger, a primeira cena que me veio a cabeça foi a da partida de tênis no clássico Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock. Mas logo lembrei do meu preferido, Festim Diabólico, primeira parceria de Granger com o mestre dos suspense e um dos filmes que mais assisti na vida.
Farley Granger não é um nome que provoca furor e lembranças na maioria das pessoas, pois ele não era um astro e, no início de sua carreira, ele era mais lembrado por seus traços belos do que por seu talento na hora de atuar. A coisa mudou quando ele se mandou para a Itália e atuou no ótimo Sedução da carne, de Luchino Visconti. Sua estreia foi num filme que eu sou louca pra ver, Amarga Esperança, um dos poucos do cineasta Nicholas Ray que não passaram diante dos meus olhos. Dizem que foi uma entrada e tanto no mundo da sétima arte. Mais para minha lista de "preciso ver".

Enfim, Farley Granger não foi um grande nome, mas sua marca está em grandes filmes. E, na minha humilde opinião, ele sempre foi mais talentoso que bonitão, apesar da crítica especializada insistir em dizer o contrário.

Bjus da Bia

segunda-feira, 28 de março de 2011

Poema de ressaca

By Bianca Zasso

Percebo minha boca seca
no meio de um sonho
onde passeio pelas ruas de Paris
sozinha e no ritmo de uma canção
tão antiga quando a minha vontade
de conhecer a cidade-luz.

É esse o sinal
de que eu ainda tenho muitos desejos
pra transformar em realizadade.
Eu quero tanto acabar o que comecei,
quem sabe começar outra vez
pra diversão ser completa e sem momentos de interrogação
Eu quero tanto voltar a habitar tuas ideias
por mais loucas e tristes que elas sejam.
Eu quero tanto acordar, respirar fundo
e avistar teus rastros pelo chão.
Eu quero tanto dividir o copo suado
recheado de gelo
durante a tarde incandescente.

Eu quero tanto e tanta coisa
que entre um querer e outro
tento me acostumar
em não ter mais nenhuma lembrança tua
pela casa.

domingo, 27 de março de 2011

As mulheres de Tennesse


Não acredito em destino. Já tive meu tempo de garotinha sonhadora. Tempo esse em que acreditava que a vida era mágica e que tudo "estava escrito". Só não sabia direito em que caderno ou quem era o autor. Sei que sooei convicta na primeira frese deste post. Mas também acredito em outra oração, aquela que diz que "convicções são cárceres". E no cárcere, não há liberdade. E sem liberdade não há felicidade que resista.
Esta semana, tive que acreditar no tal Sr. Destino, que emaranhou as coisas e fez dois nomes conhecidos cruzarem o meu caminho de maneiras diferentes, mas com um único objetivo: provocar a minha saudade.
O primeiro foi registrado num post aqui mesmo, neste humilde blog. Elizabeth Taylor nos deixou e causou um estrago, afinal, era uma das poucas grandes atrizes vivas da era de ouro de Hollywood. E ontem, dia 26, o mundo comemorou o centenário de nascimento do dramaturgo, escritor e roteirista Tennesse Williams, autor de muitas tramas que, quando adaptadas para o cinema, tiveram Liz Taylor no elenco. Não que ela fosse a musa declarada de Williams, já que ele próprio assumiu que sua inspiração para criar personagens femininas vinha de sua irmã, que sofria de esquizofrenia.

Meu primeiro contato com a obra de Tennesse Williams foi aos 18 anos, por meio de um exemplar de Um bonde chamado desejo encontrado na biblioteca da escola onde eu estudava. Lembro que li o livro rápido e o desejo de voltar para a primeira página não demorou muito a aparecer. Devolvi o livro com atraso e tive que pagar multa com uma boa parte da minha mesada. Dinheiro bem investido, não tenho dúvidas. O embate erótico entre a sonhadora Blanche DuBois e o viril Stanley Kowalsky não saía da minha cabeça. Aquela maluquete que queria enganar a si própria de que ainda era uma rica filha de fazendeiros, cercade de jóias e belos vestidos era um personagem e tanto, construído com uma sensibilidade ímpar. Aos poucos, desvendando o restante da obra de Williams, percebi que Blanche não estava sozinha. Gata em teto de zinco quente e Boneca de Carne são bons exemplos.
Mas o que torna as mulheres de Tennesse tão encantadoras? Simples, elas são reais, tem desejos, sonhos, loucuras e crises como todas nós. Sentem o peso do tempo passando, as rugas surgindo, os relacionamentos se despedaçando. São verdadeiras e talvez por isso causem tanto furor até hoje, num universo onde muitas moçoilas insistem em procurar nos livros e filmes princesas intocáveis de braços dados com belos príncipes. Tennesse criou mulheres sedutoras, que não escondiam seus desejos e, como consequência, tinha de arcar com os problemas que isso acarreta. Talvez por isso suas criações femininas tenham funcionado tão bem no cinema, pois a tela grande conseguia pegar as palavras do autor e transformá-las em olhares, lágrimas e gestos. O humano é mais belo no cinema e sempre supera a tecnologia. Basta deixar-se levar pelos gritos desesperados de Marlon Brando para sua amada Stella, na melhor adaptação de Um bonde chamado desejo que o cinema já viu, apesar do moralmente correto título Uma rua chamada pecado que o filme ganhou no nosso país tropical. Ah, e vale lembrar que é preciso fugir da versão que traz Alec Baldwin e Jessica Lange como protagonistas. É um atentado ao que chamamos de interpretação.
Se essa coisa de céu existe, Liz Taylor chegou lá em tempo de organizar e comemorar o aniversário de Williams. Coisas do destino. Acho que vou começar a acreditar nele.

Bjus da Bia

sábado, 26 de março de 2011

Oeste de arrepiar


O universo dos balaios de DVDs proporciona para cinéfilos apaixonados experiências únicas. Isso porque várias distribuidoras pequenas, incluindo a gaúcha USA Filmes, estão investindo em relançamentos de clássicos e raridades, especialmente dos gêneros faroeste, terror e guerra. Numa dessas buscas pelos balaios,que exigem dedicação e paciência, encontrei Vingança Cega. À primeira vista não reconheci, mas bastou uma boa lida na contracapa para descobrir que estava diante de um dos últimos exemplares do western-spaghetti, agora repaginado e com nome novo, já que , em VHS, o filme foi lançado no Brasil sob o título de Mannaja e na América como Um homem chamado Blade.
Lançado no final da década de 70, período de decadência do gênero western tanto nos EUA como na Europa, Vingança Cega difere de seus contemporâneos tanto pelo roteiro como pela estética. Isso deve-se ao fato de que o diretor do filme, o italiano Sergio Martino, é um dos nomes mais populares do gênero giallo, uma vertente do terror nascida na Itália e que mais tarde contaminaria Hollywood com muito sangue falso e facadas em becos escuros. E por falar em facada, logo nas primeiras cenas o espectador percebe que está diante de um exemplar único dentro do faroeste quando, de maneira magistral, descobre que o herói do filme, ao contrário dos pistoleiros do passado, tem como arma de estimação uma afiada e certeira machadinha.
Depois de ter feito giallos exemplares como Lâmina Assassina e Todas as cores da escuridão, Martino resolveu se arriscar no western sem deixar de lado seu estilo. Não por acaso o filme é estrelado por Maurizio Merli, ator italiano conhecido por seus personagens violentos. O caçador de recompensas Mannaja cai como uma luva nos traços fortes de Merli, que carrega o filme nas costas, com destaque para a cena em que é enterrado vivo. Sim, enterrado vivinho da silva. Duelos ao pôr-do-sol? Mocinhas suspirando por um rapaz de chapéu? Desculpe, você está no filme errado. No universo de Mannaja, o oeste é um terror de arrepiar até o rabo do cavalo.

Vingança Cega é bem construído e fez um relativo sucesso se levarmos em conta que o filme foi lançado quando o faroeste vivia o seu crepúsculo. Mesmo chegando a ser comparado a obras-primas como Keoma, de Enzo G. Castelari, o filme de Merli faz os mais tradicionais virarem a cara para seus cenários enfumaçados e suas cenas de violência extrema. Um preconceito bobo, se levarmos em conta que o western é um dos gêneros que mais evoluiu na história do cinema, indo do romance mais água com açúcar a cenas de tortura históricas. Mesmo que você nunca tenha visto um faroeste na vida ou que não goste do gênero, Vingança Cega é uma boa pedida. Antes de qualquer rótulo ou catalogação, é um bom filme. E isso não é pouca coisa.

Bjus da Bia. Bang!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Liz


Dizem que quando a gente cresce ouvindo algo, aquilo fica no nosso incosciente pra sempre. Eu cresci ouvindo meus avós comentarem sobre os lindos olhos e as grandes atuações de Elizabeth Taylor. Ontem, a moça que aos 24 anos já era uma estrela consagrada e com um currículo invejável de filmes, nos deixou. Mais um talento que se vai e deixa os cinéfilos mais tristes. E 2011 começou cheio de despedidas. E se o tal ciclo da vida se confirmar, talvez uma nova Liz Taylor surja. Mas duvido que seremos presenteados com outros olhos cor de violeta. :)

Bjus da Bia

sexta-feira, 18 de março de 2011

Vida


Seja na mesa do bar ou nas reuniões familiares, um assunto que sempre causa controvérsia é a morte. Temida e estudada, discutida e negada, ela já foi tema de vários filmes e passou por quase todos os gêneros. Spielberg trouxe magia para o desencarne com Além da eternidade; Robert Zemeckis fez graça dos que insistem em durarem para sempre em A morte lhe cai bem e Jerry Zucker eternizou a canção Unchained Melody no romance Ghost. Porém, nenhum diretor falou da morte com a delicadeza e a segurança de Akira Kurosawa.
Quem conhece um pouco da cultura oriental sabe que o povo de olhos puxados encara a morte de uma maneira bem diferente da nossa. Mas seja aqui na nossa terra brasilis ou do outro lado do mundo, a única coisa que não muda é o sentimento, a emoção.
Viver, de 1952, é um filme de ator, com uma trama simples sustentada pela atuação impecável de Takashi Shimura, conhecido por seu trabalho no teatro japonês, no papel de um funcionário de uma prefeitura que segue uma rotina entediante. Tudo muda quando ele descobre estar com câncer de estômago. Seu tempo é curto e um novo olhar surge. É hora de viver. Aliás, é nos olhares de Shimura que estão os melhores momentos de Viver. Nas suas pupilas está o medo e também a gana de viver. E o jeito é correr, tentando descobrir o segredo da juventude convivendo com uma alegre colega de trabalho.


Madadayo nos mostra um outro lado da morte. A história da suave despedida da vida de um professor diante de seus alunos foi o último filme dirigido por Kurosawa e um de seus trabalhos mais autobiográficos. Tendo como base o tradicional ritual do Madadayo, onde um idoso é desafiado a beber um grande copo de cerveja de uma só vez, provando que ainda tem muito tempo de vida pela frente. Mesmo vivendo em complicadas condições financeiras, o professor conta com a ajuda e o carinho de seus ex-alunos.
Com toques de humor sutis nos diálogos, uma das marcas registradas de Kurosawa, o filme tem a proximidade da morte em cada cena e não há tristeza, nenhuma lágrima, pouquíssimas queixas. Daqueles filmes que injetam esperança na veia.
Resumindo, Viver e Madadayo falam da morte nos mostrando o que realmente importa: a vida.

Bjus da Bia
P.S. Soube hoje que meus amigos que estão no Japão encontram-se bem, depois do terremoto. Sorte para eles e todos os orientais. Si cocorai está com vocês.
*Coração, em japonês.

terça-feira, 8 de março de 2011

Batalha sem rosto


Quem já sentiu raiva sabe, a simples menção do nome do inimigo já nos deixa de punhos cerrados. Mas é quando esse inimigo não tem rosto e não passa de um mistério para nós? Daí a raiva da lugar a mirabolantes ideias, que colocam os neurônios pra funcionar a mil por hora. Afinal, não existe um olhar que denuncia o desejo da nossa "vítima".
A raposa do mar, do diretor e produtor poderoso Dick Powell, é um filme sobre dois homens que não se conhecem e passam brigando. Nada de socos e pontapés. O negócio aqui é outra categoria: torpedos de alto alcance. Também pudera, os homens em questão são Robert Mitchum e Curd Jürgens. Enquanto Mitchum interpreta o capitão de um contra-torpedeiro americano, Jürgens dá vida ao comandante de um submarino alemão. Baseado no no livro The Enemy Below, o filme pode parecer, à primeira vista, mais um filme sobre conflitos navais da Segunda Guerra Mundial. Mas logo a trama simples ganha clima de jogo de xadrez, com Mitchum e Jürgens armando estratégias e tentando adivinhar o que pensa o inimigo. O carrossel de emoções que toma conta da tripulação, tanto do navio como do submarino, presenteia o expectador com momentos de correria e muita ação intercalados com silêncios de tirar o fôlego. Se bobear, dá pra ouvir os cérebros funcionando em busca de respostas.
Uma curiosidade que divide opiniões sobre A raposa do mar é o fato do diretor ter apresentado dois finais diferentes em sessões somente para convidados que, após assistirem as duas versões, votavam na sua preferida. O final que foi parar nos cinemas venceu por unanimidade. Também pudera, é surpreendente, delicado e real. Dá uma aula de amizade sem pieguices ou aquele clima de lição de moral que muitos por aí gostam. É simples, joga limpo com o público. Bravo!
Falar de filmes de guerra é um grande prazer pra mim, ainda mais quando eles envolvem conflitos navais. Tenho questões sentimentais sérias com essas batalhas em alto mar:) Por isso, relutei tanto em escrever sobre A raposa do mar, temendo que, ao invés de um post sobre o filme, eu criasse um monstrinho cheio de lembranças e declarações de amor aos marinheiros. Acho que cumpri minha função e, assim como os personagem principais do filme, fui surpreendida pela esperança no meio da guerra. Pela amizade no meio do conflito. Pela boa história no meio da vida real.

Bjus da Bia


domingo, 6 de março de 2011

Esquentando os pandeiros


O meu primeiro e único carnaval da vida foi aos 3 anos, fantasiada de indiazinha Apache. Depois disso, a tríade samba, suor e cerveja sempre passou longe de mim, com a graça de Deus. Meus carnavais são festejados com muito ar-condicionado(ai, minha rinite!), coca-cola e filmes. Muuuitos filmes. E se você, folião de sala de exibição como eu, está sem inspiração para esses quatro dias onde nosso país para e todo mundo parece ser obrigado a ser feliz e sair por aí pulando como se tivesse engolido um pogobol, aí vai a minha listinha de reservas para a folia:

OldBoy, de Chanwook Park
O canhoneiro de Yang-Tsé, de Robert Wise
Viver, de Akira Kurosawa
A ilha dos mortos, de George A. Romero
L'uomo, l'orgoglio, la vendetta, de Luigi Bazzoni
O triunfo da vontade, de Leni Riefenstahl

Bjus da Bia e bons filmes!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A dança da felicidade


Ressaca de Oscar, mais uma vez. Uma ressaca diferente, daquelas que a gente sente quando volta de uma festa tão chata que é preciso encher a cara para tentar se divertir. E eu bebi ontem pra aguentar os prêmios da Academia, mas foram xícaras de café. Teve horas que deu vontade de colocar umas gotinhas de vodka, confesso.
O Oscar 2011 foi como uma decepção amorosa feminina. Você encontra um cara lindo num bar qualquer, bate papo e descobre que ele é inteligente e divertido. Parece uma noite perfeita, mas ao invés de fechar com chave de ouro, a única coisa que cruza seu caminho é um chaveiro barato. Clichê. E mulheres odeiam clichê. Vários bolões empatados (inclusive o aqui de casa) e nenhuma surpresa. Ganhou quem a crítica apontava como favoritos e nós, brasileiros, ficamos mais uma vez na vontade já que o incrível Lixo Extraordinário não levou a estatueta de Melhor Documentário. Os americanos preferiram premiar o retrato da própria crise econômica através do incômodo Trabalho Interno.
Tom Hooper dirigiu bem O discurso do Rei e levou Melhor Diretor e, por consequência, Melhor Filme. Não foi um erro, mas Darren Aronofsky atingiu seu ápice artístico com Cisne Negro. Parece que a Academia não enxergou isso. Ou, quem sabem, continua tendo aquele preconceito besta com filmes sombrios. A Rede Social, para o bem da nação, levou os prêmios que merecia, sem exageros. Christopher Nolan deve ter ido dormir feliz, pois seu A Origem saiu cheio de troféus, apesar de ter sido injustiçado na categoria Melhor Diretor. Toy Story 3 levou dois e meu coração Pixar foi a loucura!!! :))))
Colin Firth era certo, sem comentários. Christian Bale também. Melissa Leo falou demais no discurso talvez para se desculpar, pois não merecia a estatueta. Perto do talento de Hailee Seinfield ela é uma iniciante sem futuro. Sem dúvida, uma das maiores injustiças da noite.
Mas nem tudo se perdeu. Anne "sorriso maravilhoso" Hathaway se esforçou para manter todo mundo acordado com seu bom humor e seus vestidos de cair o queixo. James Franco parecia perdido que tinha horas que eu nem lembrava que ele era um dos apresentadores. Com certeza ele não volta ao posto no ano que vem. Falando em posto, Billy Crystal deu o ar da graça e fez a gente sentir saudade dos tempos em que o Oscar tinha piadas realmente boas entre uma categoria e outra.
Ah, e pra vocês que ficaram tirando sarro do Kirk Douglas, fiquem sabendo: ele é uma lenda vida, um dos grandes atores do seu tempo, muito mais do que o pai do Michael Douglas. Spartacus, do mestre Kubrick está aí para comprovar. Mais respeito com ele, por favor. E falando em vovôs, Eli Wallack estava um charme com sua bengala. Vê-lo ganhar um prêmio honorário me lembra da minha teoria de que a Academia se arrepende até os cabelos de não ter dado um Oscar para Três homens em conflito.
Alice no país das maravilhas levou os prêmios certos. Seu visual é impecável, mas quem conhece a obra de Lewis Carrol sabe que meu amado Tim Burton errou a mão ao tentar transformar a protagonista numa jovem mulher dividida entre o casamento e a liberdade.

Mas vamos a deusa da noite. Natalie Portman seria boba se não soubesse que iria levar a estatueta. Sua personagem Nina é um símbolo da cobrança do mundo da dança e talvez o maior personagem criado pela mente criativa de Aronofsky. Grávida, linda e apaixonada, só falava um Oscar para completar a felicidade de Natalie, que se torna balzaca no mês de abril. Encarar uma idade tida como um furacão de dúvidas e crises num clima tão festivo deve ser uma dádiva para a menininha que deu as caras em Hollywood aos 12 anos, arrasando em O Profissional, ao lado de Gary Oldman. A noite foi dela e vê-la sorridente e discursando confusa no palco do Kodak Theater compensou todas as derrapadas da noite. Aquela barriga me levou às lágrimas. E a dona dela também, nas duas vezes em que fui ao cinema ver Cisne Negro. Acho que quero mais uma dose. Assistir o filme sabendo que o talento de Natalie foi reconhecido deve ter um sabor especial.

Bjus da Bia. The End.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Alma brava


Comparar filmes é uma das mais cruéis tarefas para um cinéfilo. Ainda mais quando as películas em questão envolvem questões emocionais fortes. Tem coisa pior do que ficar dividida entre a lógica da linguagem cinematográfica e o coração que puxa a cordinha pro lado contrário? Enfim, é difícil, mas não impossível. Avante!
Assisti a primeira versão de Bravura Indômita quando tinha 15 anos. Era uma menina descobrindo John Wayne e, até então, achava aquele grandalhão americano um péssimo ator que tinha uma ótima cara de cowboy. Só que havia chegado a hora de conhecer o filme que deu a ele o único Oscar de sua longa e recheada (mais de 200 longas!) carreira. Confesso que entendi plenamente porque a Academia se rendeu ao jeito turrão de Duke*. Ele é a alma do filme e não existe maior dádiva para um ator do que ser a alma de um filme. Protagonizar é uma coisa, você é praticamente obrigado a carregar o filme nas costas. Mas ser a alma é algo que acontece, uma magia que só se concretiza na tela grande. O ator pode estar em apenas uma cena, mas se ele for a alma do filme, será dessa cena que todos vão lembrar.
Tanto na versão de 1969 como na atual, conduzida com maestria pelos irmãos Coen, a história é mostrada através do olhar da menina enfezada Mattie Ross, que contrata um xerife chegado num whisky para ajudá-la na busca pelo assassino de seu pai. No filme dirigido por Henry Hathaway(responsável por outro grande faroeste, Os filhos de Katie Elder), Mattie é vivida pela insossa Kim Darby, que exagera nos trejeitos e no sotaque, criando uma protagonista romântica demais para um faroeste.

E parece que os Coen também se sentiram incomodados com o fato de um filme tão raro no universo western como Bravura Indômita, ter uma protagonista tão fraca. Prova disso foi a decisão de colocar o sempre impagável Jeff Bridges no papel que foi de Wayne, conferindo um charme que este não tinha. Com um xerife de primeira linha garantido, lá vamos nós procurar uma garota esperta para dar vida a Mattie Ross. Eis que cruza o caminho da dupla a linda Hailee Steinfeld. Com apenas 14 anos, Haille transmite uma segurança na tela digna de uma veterana. Há verdade em cada fala, em cada cena. Haille é Mattie Ross. Mesmo em momentos de maior emoção, como na despedida do Texas Ranger LaBoeuf, vivido por Matt Damon, onde corre-se o risco de desbancar para o lado da pieguice, Haille segura as pontas.

Não posso negar que tenho um carinho todo especial com o Bravura de 1969. Foi um dos primeiros integrantes da lista de filmes que me fizeram correr atrás dessa paixão chamada faroeste. Mas os Coen são danados e conseguiram fazer um filme no ponto certo. E mais: trouxeram a poeira do oeste para o Oscar, lugar que ele frequentou poucas vezes. Um paradoxo, já que essa é, ao lado do jazz, a mais americana das artes. E olha que quem disse isso foi o Clint Eastwood!

Haille é a alma do Bravura de 2010. Que o talento dela leve as pessoas até as salas de exibição para o, talvez, primeiro faroeste de suas vidas. Pode crer: a gente nunca esquece.

Bjus da Bia, bang-bang

*Duke era o apelido que John Wayne ganhou no tempo que fazia média-metragens para a produtora de filmes B Republic.