sábado, 23 de abril de 2011

Sem redenção


Uma notícia de jornal pode ser o ponto de partida para um bom filme. Foi assim que nasceu o roteiro de Segredos de um funeral, título fraco para um filme originalmente chamado Get Low. Inspirado por uma história publicada na revista Time em 1938, o longa apresenta a história de Felix Bush, um carpinteiro velho e rabugento que vive enclausurado em sua casa no meio da floresta e que é tido como uma lenda em sua cidade graças a sua fama de brigão. Se ele já atraía olhares só pelo fato de dirigir sua carroça em direção ao bar, a coisa só piora quando Bush resolve organizar seu funeral. Seria apenas alguém que sente que o fim está próximo e quer deixar tudo organizado para descansar em paz. Mas Bush quer tambores, comida e bebida. E quer estar lá. Vivo, diga-se de passagem. O que parece loucura para os moradores da cidade torna-se a grande chance para o vendedor Buddy e seu chefe Frank, que trabalham numa funerária que está mal das pernas.
Vivendo a maluquice que é agir como um organizador de festas sendo um agente funerário está o sempre ótimo Bill Murray, num papel que foge um pouco do estilo de personagem que o consagrou. Saí o cara solitário com cara de paisagem do século XXI e entra o endividado e ganancioso viúvo do final da década de 40. Mas o humor sutil e os diálogos ditos com naturalidade de Murray continuam lá, para tranquilidade dos fãs conquistados pós- Encontros e Desencontros. Só que o filme não pertence a ele, mas sim ao veterano Robert Duvall, que dá mais do que corpo e voz para o misterioso Felix Bush. O que na mão de outro ator podia tornar-se um velhinho solitário quase pueril, no talento de Duvall torna-se um caso a ser desvendado, um ser humano tentando fazer as pazes com o mundo. E mais, sofrendo para tornar isso uma realidade. As cenas de Duvall ao lado de Sissy Spacek são delicadas e ao mesmo tempo impactantes, já que somos, aos poucos, apresentados aos motivos que levaram Bush ao isolamento.
Segredos de um funeral é um filme raro em tempos politicamente corretos como os que vivemos hoje. Sem querer estragar o final, mas se você, caro leitor, curte um "felizes para sempre", prepare-se: não há redenção no filme. Nenhum anjinho cai do céu e perdoa os pecados dos personagens e o amor também não salva ninguém por estas bandas. Justamente por isso merece o nosso aplauso.

Bjus da Bia

2 comentários:

Dariane Daniela disse...

Putz... Um elenco de primeira e um enredo interessante. Deve ser mesmo um ótimo filme!

Cla disse...

Posso dizer, sou fã do que tu escreve... não tem jeito vou me render ao filme. Baixei e confesso que me deu uma certa preguiça de assistir... mas vale a dica da minha amiga cineasta.