terça-feira, 17 de maio de 2011

Olhos nos olhos


Comecei a usar óculos aos 9 anos. No começo sofri um pouco, já que lentes chamam à atenção, por mais discretas que sejam. E tímidos odeiam chamar a atenção. Durante um bom tempo, houve uma certa vergonha, uma sensação de "porque preciso disso?". Tentei lentes de contato, mas um probleminha de sensibilidade na íris impediu que eu ficasse com elas.O jeito foi encarar a vida de frente usando um pára-brisa. Era o único jeito de ver o mundo (e, principalmente, os filmes) nítidos. E foi um filme que me ensinou a amar os meus óculos.

Janela da Alma, documentário do talentoso João Jardim, é mais que um filme sobre olhares. É um verdadeiro registro de sonhos e histórias únicas que só quem tem a visão (im)perfeita consegue vivenciar. Desde a mais simples e fraca miopia até a cegueira total, nosso olhos (sempre eles) são presenteados com amores, sintonias e, antes de tudo, relações de amor com as imagens. Seja o colega de palco (Marieta Severo resume bem a coletividade que é ser ator) ou a fotografia ideal, tudo é um recorte que fazemos da vida. E, como nos filmes, temos nosso efeitos especiais. A vista embaçada por causa do choro, o fechar de olhos na hora do medo, a pupila dilatada diante da surpresa.




Sabe aquela história de visão de mundo? Pois é, cada um tem a sua e não é só uma metáfora para opinião. O olho é uma câmera e a gente filma o que bem entender. E, como em qualquer produção, temos percalços, imagens que não estavam nos nosso planos mas que não nos deixam outra saída. Precisamos encarar de frente. Sem piscar.



Hermeto Pascoal, José Saramago e o fotógrafo Evgen Bavcar são alguns do convidados para exporem suas relações com o olhar. Mas o depoimento de Wim Wenders é, pelo menos para mim, o mais poético. O cineasta das paisagens discorre sobre como se sente mal quando perde seus óculos, pois eles ajudam-no a enquandrar o mundo. Segundo Wenders, sem suas lentes ele "enxerga demais". Para ele, ver é enquadrar. Cada rosto, cada céu, cada detalhe é um plano, um close, uma cena.
Minha miopia teria solução. Uma cirurgia simples, de recuperação rápida. Mas dispenso o hospital. Minha vida não teria a mesma graça se não fosse a confusão que faço, ao acordar, procurando meus óculos no escuro. E sempre encontrando.

Bjus da Bia

Um comentário:

Claudia disse...

li 3 posts ,gostei demais do teu blog, parece que a gente conversa contigo e este do Olhos nos olhos termina com um toque pessoal teu muuuuuiito legal,eu chamaria de crônica e ficou muito bom pois quem acompanha um blog o segue por se identificar com o o blogueiro e por isso é bom qdo ele se "escancara",se desnuda mostrando um pouco de si mesmo,não gosto daqueles blogs narcisiscistas das celebridades que só falam de si mesmos como se fossem as únicas pessoas importantes e adoradas do mundo.Eu falo muito e tendo a escrever muito(ñ te achei longa)por isso o exercicio do meu blog é prazeroso prá mim:é aonde devo ser rápida e simples e não preciso de pesquisa(sou preguiçosa),é pra gente rir um pouquinho!