terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A coragem de chegar perto


Há cinéfilos preconceituosos com Hollywood. A indústria, o capitalismo, o lucro acima da qualidade e lá se vão argumentos. Há cinéfilos preconceituosos com filmes europeus. Diálogos demais, intelectuais demais, etc, etc. Preconceitos à parte, o pior é negar-se a experimentar. Não gosto do Mel Gibson. Como sei disso? Fui lá e conferi. Vi e não gostei. Os motivos? Vixi, são tantos, merecem um post exclusivo, pois vão além da tela e seus efeitos colaterais.
Cinema é como comida: não dá pra dizer que não gosta se não provar. Já tive minha fase de julgar um filme antes de assistí-lo, mas o tempo opera seus milagres e aprendi a só abrir a boca depois de passar pela sala escura. Mas quando eu ainda ostentava essa mania de meter o bico cinéfilo onde não era chamada, uma coisa mágica aconteceu. Uma não, duas. Não verdade a coisa foi só uma, mas a magia se fez presente duas vezes. Deu pra enteder? Foi tão legal que até me embanano pra explicar.
Fui comprar o presente de aniversário da minha vó. Ela própria escolheu: "Filha, quero um filme do Mazzaropi. É bem baratinho." Tá bom, Dona Branca, vai ter o seu filme. Depois de aberto o pacote, veio co convite: "Vamos ver juntas?". Como é que eu vou dizer não? Ela é minha vó, me criou, aguenta até hoje o meu jeito estabanado (quantos copos eu quebrei mesmo, vó?) e me pede pra ver filme com ela? É o mínimo que eu posso fazer, mesmo tendo a sensação de que ia dormir na segunda cena. Alerta máximo: sensação errada, Bia! Meu japão brasileiro me fez rir muito e vovó também não economizava nas gargalhadas. No fim da sessão, um presente. O dvd era meu pois, segundo vovó, eu tinha jeito pra guardar essas coisas. Foi o primeiro de muitos filmes do Mazzaropi que comprei, que iniciou uma guerrinha boa entre nós duas pra ver quem assistia primeiro.

O protagonista do próximo momento único é o excelentíssimo senhor meu pai, Saulo Antônio. Lá fui eu ver o filme do Teixeirinha, a contragosto, mesmo sabendo cantar todas as músicas, já que papai se encarregou das aulas musicais desde a minha tenra infância. Confessando um segredo, quase chorei em Coração de Luto e Teixeirinha Sete provas tá na lista de é tão ruim que é bão, como diria o Arthur de Faria. Dei uma de Mary Terezinha e entrei no clima. Só não coloquei vestido de prenda porque tenho senso do ridículo.
Mais do que me fazer rir e cantar, Mazzaropi e Teixeirinha me deram coragem de chegar mais perto das pessoas que amo, descobrir o que elas gostavam de assistir quando tinham a minha idade e ainda gostam, pois essas coisas são eternas.
A aproximação. Este é mais um dos poderes do cinema. Na próxima sessão, não se acanhe. A indicação do companheiro de fila ou da sua mãe mesmo pode render uma boa diversão. E de brinde ainda vem uma boa história pra colocar no livrinho da vida.

Bjus da Bia


Um comentário:

Rafael disse...

Belo texto Bia querida!
Lembro que logo depois de comprarmos um vídeo, a mãe pediu pra pegar o 'Coração de Luto' na locadora pra ela ver. Eu fui meio relutante, afinal era de se esperar que eu teria de assistir com ela. Pra minha surpresa, meia hora depois do começo do filme, a mãe não se aguentou sentada e arrumou algo pra fazer. E eu fiquei alí grudado na tela até o fim. De vez ou outra ela vinha dar uma olhadinha. Por fim, ela largou: "na minha época parecia que era mais divertido". Certamente que ver um filme destes no cinema há uns 30 anos deveria ser uma experiência bem diferente. Já eu, na minha adolescência, até então acostumado com os filmes hollywoodianos, achei o máximo ver Teixerinha fazendo um cinema gaúcho.
Bjooo Biaaa